NOTÍCIAS - 03/10/2026

Osmar Ferreira - Uma história de luta e resistência

É com profunda tristeza e um sentimento imenso de gratidão que o Sindicato dos Bancários de Feira de Santana comunica o falecimento de Osmar Pereira Ferreira, neste sábado, 3 de outubro de 2026, aos 83 anos.

Existem pessoas que participam da história de uma entidade. E existem aquelas cuja própria vida passa a fazer parte dessa história. Osmar é uma delas.

Cofundador do Sindicato dos Bancários de Feira de Santana, ex-dirigente sindical, bancário, advogado, militante dos movimentos estudantil e sindical, anistiado político e um dos grandes símbolos de resistência da categoria bancária, Osmar deixa uma trajetória que atravessa mais de seis décadas de organização dos trabalhadores, defesa de direitos, perseguição, coragem, reconstrução e perseverança.

Nascido em Conceição da Feira, Osmar chegou ainda jovem a Feira de Santana, na década de 1950, para estudar no antigo Colégio Estadual, no local onde hoje funciona o CUCA. Foi ainda nos tempos de estudante que começou sua participação na vida coletiva da cidade. Esteve envolvido na organização de associações e grêmios estudantis e participou das mobilizações daquele período, dando os primeiros passos de uma vida que seria marcada pelo compromisso com as causas dos trabalhadores e com a organização popular.

Aos 17 anos, em setembro de 1960, iniciou sua vida profissional no Banco da Bahia, em Feira de Santana. Pouco tempo depois, em 1961, foi chamado por outros bancários para ajudar no processo de organização da Associação dos Empregados em Estabelecimentos Bancários de Feira de Santana. Participou da construção da entidade e integrou sua primeira diretoria. A associação seria oficializada e, em 15 de junho de 1963, transformada no Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Bancários de Feira de Santana. Na eleição realizada naquele mesmo ano, Osmar foi eleito suplente da presidência.

Ou seja: quando o nosso Sindicato dava seus primeiros passos, Osmar estava lá.

Estava entre aqueles jovens bancários que compreenderam que nenhuma conquista acontece de forma isolada e que trabalhadores precisam se organizar coletivamente para defender seus direitos. Essa escolha, feita quando ele tinha pouco mais de 18 anos, marcaria profundamente todo o restante de sua vida.

Em abril de 1964, com o golpe militar, aquela jovem organização sindical passou a sofrer uma violenta repressão. A sede do Sindicato foi invadida, documentos, móveis, máquinas de escrever e mimeógrafos foram destruídos e dirigentes foram perseguidos. Osmar, que além da atuação sindical tinha ligação com a juventude do Partido Comunista Brasileiro, tornou-se um dos alvos da repressão.

No dia 8 de abril de 1964, enquanto trabalhava normalmente na agência do Banco da Bahia, Osmar foi preso. Um sargento do Exército e policiais militares chegaram ao banco e o retiraram de seu local de trabalho. Ele tinha apenas 21 anos. Passou 12 dias preso, submetido a torturas físicas e psicológicas e interrogatórios em razão de sua atuação sindical e política.

Quando finalmente deixou a prisão, em 20 de abril, voltou ao banco. Em vez de encontrar reparação ou acolhimento, encontrou outra violência: foi demitido, apesar de possuir estabilidade decorrente do mandato sindical.

Tentaram arrancar dele, de uma só vez, a liberdade, o emprego e o direito de organização.

Não conseguiram arrancar sua dignidade.

A perseguição não terminou quando Osmar saiu da prisão. Sem conseguir emprego, teve de buscar outras formas de sobrevivência e passou a trabalhar como caminhoneiro ao lado do pai. Também enfrentou obstáculos para realizar o sonho de cursar Direito. Durante anos, segundo seus próprios relatos, suas tentativas de ingresso no ensino superior foram impedidas em consequência da perseguição política. Ainda assim, perseverou. Conseguiu finalmente cursar Direito e construiu uma longa carreira na advocacia, atuando por décadas, especialmente nas áreas trabalhista e eleitoral.

O tempo passou, mas Osmar nunca aceitou que a injustiça cometida contra ele fosse apagada.

Com a redemocratização, iniciou uma longa caminhada pelo reconhecimento da perseguição sofrida. O processo de anistia política foi formalizado junto ao Estado brasileiro e, em 2010, a Comissão de Anistia reconheceu oficialmente Osmar Pereira Ferreira como anistiado político, reconhecendo que ele havia sido atingido por perseguição de natureza política.

Em abril de 2011, décadas depois de ter sido afastado à força da categoria, Osmar retornou também simbolicamente ao Sindicato dos Bancários de Feira de Santana. Sua refiliação foi transformada em um ato de memória e reconhecimento. Na ocasião, a presidência da entidade foi simbolicamente entregue a ele por alguns instantes, um gesto simples, mas carregado de significado: aquele jovem dirigente que havia sido perseguido quando ajudava a construir o Sindicato voltava para a casa que também ajudara a erguer.

Mas Osmar ainda queria uma última reparação: voltar pela porta da frente do banco de onde havia sido retirado.

Começou então outra longa batalha judicial para que fosse reconhecida a ilegalidade de sua demissão. O caso percorreu a Justiça do Trabalho durante anos. Em 2014, o Tribunal Superior do Trabalho reconheceu seu direito à readmissão, mas a disputa judicial ainda se prolongaria.

E então veio uma das cenas mais extraordinárias de sua trajetória.

Em 2023, 59 anos depois da demissão, Osmar voltou ao banco.

Já com 80 anos, apresentou-se ao Bradesco, instituição que havia incorporado o antigo Banco da Bahia, para cumprir a decisão judicial que determinava sua readmissão. Em maio daquele ano, o retorno foi efetivado. Cercado por bancários, sindicalistas, amigos e companheiros de tantas décadas, Osmar voltou à condição de bancário.

Era muito mais do que um contrato de trabalho sendo restabelecido.

Era um homem retornando, quase seis décadas depois, ao lugar de onde havia sido retirado pela força.

Era a história devolvendo a Osmar, ainda que tardiamente, parte daquilo que lhe haviam tirado.

E até naquele momento ele fez questão de transformar sua vitória pessoal em uma mensagem coletiva. Não falou apenas de si. Falou dos jovens bancários, dos trabalhadores e da necessidade de nunca abandonar a luta por direitos.

Sua mensagem ficou registrada: “Lutar sempre, não desistir jamais.” Essa talvez seja uma das melhores formas de compreender quem foi Osmar.

Sua história tornou-se referência dentro e fora da categoria. Foi homenageado pelo movimento sindical em diferentes momentos e, em 2024, quando se completaram 60 anos de sua prisão, o Sindicato dos Bancários de Feira de Santana e a Federação dos Bancários da Bahia e Sergipe voltaram ao local daquela história para homenageá-lo e reafirmar a importância de preservar sua memória.

Feira de Santana também reconheceu oficialmente o homem que havia escolhido a cidade ainda na juventude e ajudado a construir parte de sua história social e sindical. Nascido em Conceição da Feira, Osmar recebeu o Título de Cidadão Feirense, concedido por decreto legislativo em dezembro de 2024 e entregue em sessão solene da Câmara Municipal em junho de 2025. Na cerimônia, já emocionado, recordou sua chegada à cidade para estudar, suas primeiras lutas estudantis e, novamente, aquele dia em que saiu algemado do Banco da Bahia.

Hoje, a categoria bancária perde um de seus grandes personagens históricos. Mas o Sindicato perde também algo ainda mais próximo: um dos seus fundadores, um companheiro de caminhada e uma parte viva da própria memória da entidade.

Não há como contar integralmente a história do Sindicato dos Bancários de Feira de Santana sem falar de Osmar Pereira Ferreira. Quando esta entidade ainda era uma ideia sendo construída por um pequeno grupo de trabalhadores, ele estava presente. Quando vieram a perseguição e a intervenção, ele pagou um preço altíssimo por ter escolhido estar ao lado dos trabalhadores. E quando, tantas décadas depois, a democracia lhe permitiu buscar reparação, ele voltou a procurar o Sindicato. Essa ligação nunca se rompeu.

A vida de Osmar nos lembra que sindicatos não são apenas prédios, diretorias ou documentos. Sindicatos são feitos de pessoas. De memória. De coragem. De gente que, muitas vezes, entregou parte da própria vida para que aqueles que viessem depois encontrassem direitos onde antes havia apenas silêncio e medo.

Por isso, nossa despedida é também um agradecimento. Obrigado por ter mostrado a tantas gerações de bancários que uma injustiça pode atravessar décadas, mas a busca por dignidade também pode.

À família, aos amigos, companheiros de militância e a todos aqueles que tiveram o privilégio de conviver com Osmar, o Sindicato dos Bancários de Feira de Santana manifesta seu mais profundo carinho, respeito e solidariedade.

Neste momento de dor, nos despedimos com a certeza de que Osmar Pereira Ferreira não será apenas lembrado. Será parte permanente da nossa história.

Enquanto existir o Sindicato que ele ajudou a construir, sua memória estará aqui. Enquanto bancários e bancárias se organizarem para defender seus direitos, haverá um pouco da coragem de Osmar nessa caminhada. E enquanto houver quem conte sua história, aquilo que tentaram silenciar em 1964 continuará vivo.

Descanse em paz, companheiro Osmar.

O velório será realizado neste domingo, 4 de outubro de 2026, a partir das 8h, no Cemitério Bosque da Paz, Sala 06. A cremação está marcada para as 10h.

 

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