Quem é o chefe no banco?

O vocabulário nunca é neutro. Quando bancários chamam gerentes e outros superiores imediatos de “chefe”, muitas vezes estão, ainda que involuntariamente, reforçando uma lógica de subordinação que interessa aos bancos: a de naturalizar o autoritarismo no ambiente de trabalho e embaralhar quem manda de fato com quem apenas executa a pressão de cima para baixo.
Nos bancos, o poder real não está na mesa do gerente da agência, nem na sala do coordenador. Está nas diretorias, nos conselhos, entre banqueiros e acionistas que definem metas abusivas, políticas de gestão e estratégias de exploração cada vez mais sofisticadas. São essas cúpulas que determinam o ritmo de adoecimento, assédio e cobrança que invade a rotina da categoria. O gerente, por mais que ocupe função de comando, também é peça dessa engrenagem.
O problema é que muitos desses profissionais, em vez de se reconhecerem como trabalhadores submetidos à mesma lógica perversa, preferem vestir a fantasia da autoridade. Incorporam o papel de fiscal da produtividade, reproduzem a cultura do medo, elevam o tom, cobram além do limite e se comportam como pequenos executivos de um poder que não possuem. Agem como se fossem donos do banco, quando, na prática, continuam sendo empregados submetidos às ordens de cima e descartáveis na primeira reestruturação.
Esse comportamento não é apenas lamentável. É funcional para o sistema. Quanto mais o gerente se afasta da equipe e se coloca como “chefe”, mais ajuda a blindar os verdadeiros responsáveis pela violência organizacional dentro dos bancos. A pressão deixa de ter rosto institucional e passa a ser encarnada no cotidiano por figuras intermediárias, que operam como correias de transmissão da truculência corporativa. O resultado é um ambiente fragmentado, competitivo e intoxicado pela lógica da disciplina e da vigilância permanente.
Em uma categoria sufocada por metas, assédio e adoecimento, reconhecer quem concentra o poder e quem apenas reproduz a opressão é essencial. A organização coletiva começa quando os bancários deixam de naturalizar o autoritarismo, rompem com as barreiras artificiais dentro dos locais de trabalho e recolocam a luta no seu devido eixo: contra os verdadeiros chefes donos do lucro e contra toda prática gerencial que transforme colega em carcereiro de colega.
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